Muitos pacientes descobrem que têm hérnia de hiato ao fazer uma endoscopia. O laudo chega — mas quase sempre deixa uma dúvida: isso é grave? Preciso operar?
O que é a hérnia de hiato
O hiato esofágico é uma abertura natural no diafragma por onde passa o esôfago. Em condições normais, existe uma barreira entre o esôfago e o estômago que ajuda a impedir o retorno do conteúdo gástrico. Essa barreira depende do esfíncter inferior do esôfago, do diafragma, do ângulo entre esôfago e estômago e da posição correta da junção esofagogástrica.
Na hérnia de hiato, parte do estômago sobe através dessa abertura e entra no tórax. Quando isso acontece, a barreira antirrefluxo pode ficar comprometida — e o refluxo tende a ocorrer com mais facilidade.
O tamanho importa. Mas não é o único fator.
Uma das primeiras perguntas que os pacientes fazem é: “Qual o tamanho da minha hérnia?” É uma pergunta natural, mas não é a mais importante.
Uma hérnia pequena pode ser significativa se estiver associada a refluxo intenso, esofagite ou esôfago de Barrett. Por outro lado, uma hérnia maior encontrada por acaso pode não exigir cirurgia imediata se o paciente está bem controlado clinicamente e sem complicações.
A pergunta certa não é “qual o tamanho da hérnia?” — é “essa hérnia explica meus sintomas e muda meu tratamento?”
O que deve ser avaliado no conjunto
Para tomar essa decisão, o cirurgião precisa analisar:
- Sintomas predominantes (azia, regurgitação, disfagia, tosse)
- Resposta ao tratamento clínico
- Presença e grau de esofagite
- Presença de esôfago de Barrett
- Tamanho e tipo da hérnia
- Função do esôfago (avaliada pela manometria)
- Impacto na qualidade de vida
Quando o tratamento clínico é suficiente
A maioria dos pacientes com hérnia de hiato começa — e permanece — bem com tratamento clínico. Isso inclui ajuste alimentar, evitar refeições volumosas à noite, reduzir gatilhos individuais, elevar a cabeceira em casos selecionados e usar medicação corretamente.
Nem toda hérnia de hiato precisa de cirurgia. Essa é uma afirmação importante, porque muitos pacientes chegam ao consultório convictos de que precisarão operar apenas por terem visto o termo no laudo.
Quando a cirurgia faz sentido
A cirurgia é discutida principalmente quando há refluxo persistente apesar do tratamento adequado, regurgitação importante, hérnia maior ou complicações. Também pode ser considerada em pacientes que desejam uma alternativa ao uso contínuo de medicação, desde que os exames confirmem indicação.
Os dois objetivos da cirurgia
- Corrigir a hérnia de hiato: reposicionar o estômago para sua posição adequada e fechar o hiato diafragmático
- Reconstruir a barreira antirrefluxo: fundoplicatura — uma válvula que reduz o retorno do conteúdo gástrico para o esôfago
O tipo de fundoplicatura — total ou parcial — varia conforme a anatomia e a função do esôfago. Os estudos de longo prazo não mostram diferença significativa no controle do refluxo entre as duas técnicas. A principal diferença está nos efeitos colaterais: a válvula total pode ter maior incidência de disfagia e desconforto com gases em alguns pacientes — por isso a função do esôfago define a escolha.
A cirurgia pode ser realizada por laparoscopia ou cirurgia robótica, dependendo do caso e da avaliação do cirurgião.
Perguntas frequentes
Não necessariamente. Hérnias pequenas, sem sintomas importantes ou complicações, costumam ser manejadas com tratamento clínico. A decisão depende do conjunto: sintomas, resposta à medicação, achados na endoscopia e impacto na qualidade de vida.
Fundoplicatura é um procedimento que reforça a barreira natural entre o esôfago e o estômago. O cirurgião utiliza parte do estômago (fundo gástrico) para envolver a parte inferior do esôfago, reduzindo o refluxo. Pode ser total (360°) ou parcial, conforme a função do esôfago.
Não. Hérnia de hiato é uma alteração anatômica; refluxo é um fenômeno funcional. As duas condições podem estar associadas, mas nem toda hérnia de hiato causa refluxo importante, e nem todo refluxo é causado por hérnia de hiato.
Quando bem indicada e realizada por cirurgião experiente, a cirurgia minimamente invasiva tem bom perfil de segurança. O risco cirúrgico depende de fatores individuais, como idade, comorbidades e características da hérnia. O cirurgião deve discutir os riscos e benefícios de forma individualizada.
Hérnia de hiato no laudo e dúvidas sobre o próximo passo?
A avaliação considera sintomas, endoscopia, função esofágica e impacto na qualidade de vida — não apenas o tamanho da hérnia.
Gastrocirurgia em São Paulo com cirurgia robótica, minimamente invasiva e laparoscopia
O Dr. Tiago Ijichi é médico cirurgião que atende pacientes com doenças do aparelho digestivo, incluindo casos de vesícula, diverticulite, hérnias, cirurgia bariátrica, endometriose intestinal e tumores gastrointestinais.