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Poucos laudos assustam tanto quanto “esôfago de Barrett”. Mas o diagnóstico não significa que o caminho é necessariamente a cirurgia — nem que tudo está resolvido sem ela.

O que é o esôfago de Barrett

O esôfago de Barrett está geralmente relacionado ao refluxo crônico. Com a exposição repetida da parte final do esôfago ao conteúdo gástrico, o revestimento dessa região pode sofrer uma alteração chamada metaplasia intestinal — as células normais do esôfago são substituídas por um tipo celular diferente, mais parecido com o do intestino.

Essa mudança é estrutural, não apenas inflamatória. Por isso, o controle da acidez ajuda, mas não reverte o Barrett já estabelecido.

“Barrett vira câncer?”

O Barrett é considerado uma condição precursora do adenocarcinoma de esôfago. Isso significa que, na presença de Barrett, o risco de desenvolver esse tipo de câncer é maior do que na população geral.

Mas isso não significa que todo paciente com Barrett terá câncer. Na maioria dos casos — especialmente quando não há displasia — o acompanhamento é feito com vigilância endoscópica regular e controle adequado do refluxo. O risco real depende de vários fatores: extensão do Barrett, presença ou ausência de displasia, sexo, idade, obesidade abdominal, tabagismo e histórico familiar.

“A cirurgia cura o Barrett?”

Essa é uma das perguntas mais importantes — e merece uma resposta honesta.

A cirurgia antirrefluxo não deve ser apresentada como cura do Barrett. Seu objetivo é controlar o refluxo — não reverter a metaplasia já instalada.

Em casos selecionados, um bom controle do refluxo após a cirurgia pode estar associado a melhora do processo inflamatório. Mas, mesmo após uma cirurgia bem-sucedida, o paciente com Barrett geralmente continua o acompanhamento endoscópico conforme orientação do gastroenterologista.

E quando existe displasia?

Quando há displasia ou lesões iniciais, o tratamento pode envolver terapias endoscópicas específicas, como a ablação por radiofrequência (RFA) — hoje o padrão para Barrett com displasia de baixo e alto grau — ou ressecção endoscópica de mucosa. A cirurgia antirrefluxo pode fazer parte da estratégia de controle do refluxo, mas não substitui o tratamento endoscópico quando ele está indicado.

Quando pensar em cirurgia no paciente com Barrett

A cirurgia antirrefluxo pode ser discutida quando:

  • O refluxo está mal controlado apesar do tratamento clínico adequado
  • Existe regurgitação importante
  • Há hérnia de hiato associada
  • Existe esofagite persistente
  • O paciente depende de medicação com sintomas recorrentes
  • O paciente deseja alternativa ao uso contínuo de remédio

Nesses casos, os exames de função esofágica são essenciais antes de qualquer decisão. Manometria e pHmetria ajudam a confirmar que o refluxo é o problema real e que o esôfago está apto para uma fundoplicatura.

Medo em pressa é o pior caminho

A pior forma de tratar Barrett é transformar medo em pressa. A melhor forma é transformar medo em plano.

Cada detalhe muda a conduta: Barrett curto ou longo, com ou sem displasia, com refluxo controlado ou não. A pergunta mais útil não é “Barrett tem cura?” — é “meu refluxo está bem controlado e meu acompanhamento está organizado?”


Perguntas frequentes

O acompanhamento endoscópico é indicado para a maioria dos pacientes com Barrett, com frequência que varia conforme o tipo, extensão e presença de displasia. Barrett sem displasia geralmente segue intervalos maiores; com displasia, o acompanhamento pode ser mais frequente ou envolver tratamento endoscópico específico.

A ablação por radiofrequência (RFA) é uma técnica endoscópica que utiliza energia térmica para “queimar” as células com metaplasia ou displasia no esôfago. É o tratamento endoscópico padrão para Barrett com displasia. Não é uma cirurgia — é realizada pelo endoscopista durante a endoscopia.

Não necessariamente. Pacientes com Barrett sem displasia, com refluxo bem controlado e sem outras complicações, costumam ser acompanhados clinicamente. A cirurgia pode ser discutida se houver refluxo mal controlado, regurgitação, hérnia de hiato ou outros fatores que justifiquem a avaliação cirúrgica.

Os intervalos variam conforme as diretrizes e o tipo de Barrett. Em geral, Barrett curto sem displasia pode ser acompanhado a cada 3 a 5 anos; Barrett longo, mesmo sem displasia, costuma ter acompanhamento em intervalos menores. Quando há displasia, o seguimento é mais próximo e pode envolver tratamento endoscópico. Cada caso deve ser orientado pelo gastroenterologista.


Gastrocirurgia em São Paulo com cirurgia robótica, minimamente invasiva e laparoscopia

O Dr. Tiago Ijichi é médico cirurgião que atende pacientes com doenças do aparelho digestivo, incluindo casos de vesícula, diverticulite, hérnias, cirurgia bariátrica, endometriose intestinal e tumores gastrointestinais.