Azia de vez em quando é uma queixa comum. Mas quando o refluxo passa a fazer parte da rotina — e o remédio não resolve — a situação muda
Frases que ouço frequentemente no consultório
Muitos pacientes chegam à consulta dizendo coisas parecidas:
- “Doutor, tomo remédio há anos. Se paro, a queimação volta.”
- “Não tenho tanta azia, mas tenho muita regurgitação.”
- “Durmo mal porque sinto o líquido voltando — às vezes acordo sufocado.”
- “Já acostumei a viver assim.”
O problema é justamente esse: refluxo crônico não deve ser tratado como algo normal só porque é frequente.
O que é a doença do refluxo gastroesofágico
A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) acontece quando o conteúdo do estômago retorna para o esôfago e causa sintomas ou lesões. Os sintomas mais conhecidos são azia e queimação, mas o refluxo também pode causar:
- Regurgitação frequente
- Tosse crônica sem causa respiratória identificada
- Rouquidão persistente
- Pigarro recorrente
- Dor torácica não cardíaca
- Sensação de bolo na garganta
- Dificuldade para engolir
- Inflamação na garganta
Quando esses sintomas aparecem, o quadro merece investigação mais completa — não apenas controle da acidez.
O remédio reduz a acidez. Mas não trata o refluxo.
Os inibidores de bomba de prótons (“prazóis”) funcionam bem para muitos pacientes. Mas existe uma diferença importante:
Reduzir a acidez não significa corrigir o mecanismo do refluxo.
O remédio diminui a agressividade do conteúdo que volta ao esôfago, mas não corrige uma hérnia de hiato, não reconstrói a barreira antirrefluxo e nem sempre resolve a regurgitação.
Quando investigar mais a fundo
Algumas situações indicam que o tratamento clínico sozinho pode não ser suficiente:
- Refluxo persistente apesar do tratamento adequado
- Necessidade de uso contínuo de medicação por muitos anos
- Regurgitação volumosa ou frequente
- Hérnia de hiato identificada
- Esofagite importante ou esôfago de Barrett
- Sintomas respiratórios ou de via aérea alta associados ao refluxo
- Dúvida se os sintomas são realmente causados por refluxo
Exames que mudam a conversa
A investigação do refluxo vai além da endoscopia. Em casos selecionados, três exames são fundamentais:
- Endoscopia digestiva alta: avalia esofagite, hérnia de hiato e Barrett
- Manometria esofágica: avalia como o esôfago contrai e como o esfíncter funciona
- pHmetria ou impedanciopHmetria: confirma se o refluxo está acontecendo e quantifica a exposição ácida ao longo de 24 horas
Esses exames respondem à pergunta fundamental: o refluxo é realmente a causa dos meus sintomas?
Quando a cirurgia entra na discussão
Nem todo paciente com refluxo precisa operar. A maioria começa e permanece bem com tratamento clínico, ajuste alimentar e medicação. Mas alguns pacientes se beneficiam de uma avaliação mais detalhada para entender se existe indicação cirúrgica.
A cirurgia antirrefluxo tem como objetivo reconstruir a barreira entre o esôfago e o estômago e corrigir a hérnia de hiato quando presente. Ela pode ser realizada por laparoscopia ou cirurgia robótica, dependendo do caso.
A indicação vem antes da tecnologia. A cirurgia pode ser excelente quando bem indicada — e pode frustrar expectativas quando o paciente não foi investigado adequadamente.
Perguntas frequentes
O uso prolongado de inibidores de bomba de prótons é considerado seguro para muitos pacientes, mas não é ideal como solução permanente sem reavaliação periódica. Pacientes que dependem da medicação continuamente, sem melhora completa dos sintomas, merecem ser reavaliados para entender se existe indicação de investigação mais completa ou tratamento cirúrgico.
Refluxo é o retorno do conteúdo do estômago para o esôfago, causando sintomas ou lesões. Hérnia de hiato é uma alteração anatômica em que parte do estômago sobe para o tórax através do diafragma. As duas condições podem estar associadas, mas são diferentes — e a presença de hérnia de hiato pode influenciar a decisão de tratamento.
Sim. Azia é a sensação de queimação no peito ou na garganta. Regurgitação é o retorno do conteúdo gástrico à boca ou garganta sem esforço. A regurgitação costuma responder menos à medicação e pode indicar uma falha mais significativa na barreira antirrefluxo.
Não. A maioria dos pacientes com refluxo é bem controlada com tratamento clínico. A cirurgia é indicada para um subgrupo selecionado de pacientes, com critérios específicos baseados em sintomas, exames e impacto na qualidade de vida.
Tem refluxo há anos e depende de medicação contínua?
Uma avaliação especializada pode ajudar a entender se o tratamento clínico ainda é suficiente ou se existe indicação de investigação cirúrgica — sem pressa e sem promessas simplistas.